Hoje Vou Fazer Algo Diferente
Vou postar o primeiro capítulo do meu novo livro
“Naquela eufônica manhã de outono, os presos que retornavam da saidinha de Páscoa me olhavam aterrorizados. Tendo cometido crimes menores — seus estupros, sequestros, assassinatos —, a fantasmagórica visão de um sujeito encarcerado pelo meu crime lhes causava engulhos.” — Trecho da minha autobiografia, Arquipélago Papuda.
Com a cabeça batendo no teto e a água subindo até o pescoço, resta apenas uma fresta mínima para respirar.
Porque eu quero.
Não é a primeira vez.
Aos treze anos, achei meu primeiro maço de cigarros na rua. Fumei três ou quatro. Escondido. Passei a noite com uma febre terrível. Pensando estar à beira da morte, confessei à minha mãe o que havia feito. Moral da história: se um dia você achar que está no seu leito de morte, não confesse nada. Porque, vai que não está?
Anos mais tarde, durante o confinamento do Covid-19, peguei o hábito de fumar. Logo depois, abandonei. Pode-se dizer que adquiri o estranho hábito de não fumar. Sem perceber, eu já me preparava para a vida na prisão.
“Josef K. acordou naquela manhã, lavou o rosto, olhou-se no espelho e disse: ‘O processo é normal. Você é quem está se radicalizando.’”
Sempre tentei me encaixar, vivendo como aquele chinês que correu uma maratona inteira enquanto fumava 30 cigarros. Um exercício sufocante e cansativo, em nome de um bem maior.
Com o tempo, porém, você começa a suspeitar que, numa situação que transborda, não adianta insistir em levar o copo até a boca, quando o mais fácil é levar a boca até o copo.
Mas, a vida te engana. Ela te faz crer que uma turba enfurecida é incapaz de fazer justiça. Faz você jurar que jamais se juntaria a um linchamento. Até que você se junta. Quando escuta a voz de quem sofreu e é tomado pelo desejo de estar do lado certo de uma barbárie, pelo menos uma vez na vida.
A tragédia que você esperava acontecer para poder bancar o herói. Ajudar o próximo no momento exato em que Deus estiver olhando. Ou, pelo menos, desgarrar-se do rebanho e juntar-se à matilha.
Por que a turma do “deixa-disso” tem sempre que prevalecer? Por que não dar uma chance à turma do “não deixava” para defender sua tese? Senão para descobrirmos a proporção ótima de sociopatas que a civilização consegue suportar antes que a patocracia vire a norma.
Começo a respirar o palmo que me resta.
Entre a venda nos seus olhos e o puxar do gatilho, é aí que você enxerga a psicopatia nua e crua. A covardia já se desnuda quando surge a mordaça. E a crueldade, ao carregar o homem, mas não a arma.
Sempre fui contra a pena de morte. Ainda mais naquele dia. Quando se tratava da minha. O direito ao porte de arma é um princípio que acho indefensável quando a arma está apontada para mim.
Entre o estampido do tiro e a ausência de um novo buraco no seu corpo, você sente — e não tem como não sentir — que há algo muito errado. Superestimulado até a letargia, convenci-me de que seria uma forma poética demais de expiar um pecado tão vulgar quanto o meu.
Demora para a ficha cair. A dor é um mensageiro morto, e seu silêncio implica que não sobrevivi pela força interior nem pela clemência alheia. Foi uma sobrevivência mecânica. Nada mais. Assombrado agora pela súbita lembrança de estar vivo. E pela promessa da liberdade perdida.
O tipo de esperança que só reacende quando o tiro sai pela culatra e a bala encontra seu corpo. Ainda assim, você sobrevive. E decide apostar contra esse destino. Um fantasma, a consequência não intencional do erro de outro.
Aconteceu com um homem. Não era um homem bom. Se fosse, não teria parado aqui. Era alguém como eu. Alguém com quem não conversar.
Entre potáveis e combustíveis, a acidez dos nossos estômagos hoje atinge picos históricos. Ele provou isso para nós. Enquanto cuidavam do buraco em sua barriga.
Ele foi alimentado. Não pela boca, como seria civilizado. Mas pela ferida aberta. Lhe desciam alimentos variados goela abaixo — ou melhor, buraco adentro — amarrados em um barbante. Depois, checavam sua reação. Anotando os resultados precisos das oscilações de humor no processo digestivo. Observando com os olhos cheios de bile de um cadáver vivo, mantido vivo por vivissecção constante.
O ar fica mais rarefeito do que a razão.
Se podemos quebrar um homem e depois consertá-lo, deveríamos ser capazes de “desquebrá-lo”. Consertar o homem em benefício próprio. Como acertar os ponteiros de um relógio para a hora que você deseja ver. Dar-lhe a chance de poder ser humilde, sem precisar ser humilde. De poder mostrar ao mundo toda a sua inédita magnanimidade.
E assim, ele vagava pelos corredores. Imaginando se aquilo era a prisão ou o Inferno. O que me leva a crer que ele nunca achou que tivesse muita chance de ir para o Céu.
Então, se não é o Inferno, a prisão deve ser o Purgatório. Onde o tempo se arredonda para a eternidade. Que diferença faz, afinal, passar três quartos da eternidade por aqui, mesmo por bom comportamento, se isso compra pouca boa vontade do lado de lá? Quanto tempo é isso, afinal?
Claro, nem tudo é sofrimento. Existe o alívio formulaico dos confortos encenados, a sua vez na fila da tolerância e os respectivos ópios dos campos de reeducação preventiva.
Eu chamo isso de depravação do sono: a deterioração da virtude e dos princípios morais devido ao excesso de sono. Foi o que me ajudou a entender que quase tudo é pior que a morte.
Acendo meu último cigarro pela milésima vez. Não é um hábito saudável. Eu sei. Mas viver também não é. Você sabe.
À medida que o tempo sufoca a mente, ouço o som que a água faz enquanto você se afoga.



